O QUE APRENDI COM O HOMEM QUE CHAMEI DE PAI

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Estou há mais de uma hora no Aeroporto regional de Medellin à espera que as condições meteorológicas libertem o voo. Foram aqueles dois segundos generosos que pedi ao criador, para ter tempo útil de descarregar fotografias, pôr me a par das notícias, levantar dinheiro, mandar mensagens aos amigos, escrever e sentar o rabo irrequieto por uns momentos. Aqui onde estou há muito burburinho à medida que os voos vão sendo cancelados e adiados.
Entretanto já organizei as 1.800 fotografias que tirei até agora para prosseguir animadamente com a minha reportagem da Colômbia.
Quero contar tanto, de tudo o que já vi e vivi aqui, que às vezes engasgo entre a escolha das melhores fotografias e das palavras certas.
Hoje é Dia do pai já pus o meu post tributo pela voz das loiras. Mas acho que posso acrescentar mais qualquer coisa a um tópico que me é sensível. Não tive a sorte de ter um bom pai, pensando de forma razoável, acho que não cheguei sequer à sorte de o ter.
Os rasgos da pouca convivência familiar não deixaram sobras para amaciar a saudade. Se fosse dada ao lamento sofreria com a ausência do que não tive. Sou sincera, invejo cada post de tributo que li hoje, cada fotografia queimada pelo tempo que vejo, cada palavra sentida que escrevem. Não tenho, nunca tive e nunca terei essa sorte. A vida deu me um avô que sublimou o afecto que a minha história não quis desenhar na figura de um pai.
Talvez por isso fui sempre tão cuidadosa na relação que sonho para as minhas filhas, no afecto que lhes desejo, na admiração, na candura, na referência, no afecto, na presença e na educação do pai, o pai que têm a sorte continuada de ter.
Talvez também por isso, tenha tido o cuidado de minimizar o ego e de dar asas à maior aprendizagem de generosidade do meu carácter, para que mesmo separados fossemos sempre amigos.
E um pai amigo da mãe é sempre um pai melhor.
E a prova é me confirmada por elas todos os dias.
Não sou mestra de coisa nenhuma, mas se pudesse, não deixava que nenhum ser se fizesse adulto, sem a capacidade de se suplantar a si mesmo, aos seus erros e rancores, possibilitando que a pessoa com quem um dia desejamos o melhor fruto comum, possa ter todas as ferramentas que precisa para lhes edificar o melhor dos castelos.
Hoje não posso pôr um desses textos que invejo, nem socorrer as boas memórias com uma fotografia queimada. Mas se calhar hoje, também já não lamento o que não tive, só porque a vida me foi ensinando a ver tudo o que já tenho.

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