O Natal é uma “boa” palhaçada.

IMG_0441_7015

O Natal é uma “boa” palhaçada.
E se assim não fosse, eu também acho que não gostaria muito do Natal. A verdade é que nunca fui grande fã de aglomerações familiares flatulentas. Já sofri na pele o desconforto do veludo e do tafta. Já me senti mais enfeite que criança. Já tive que dar muito beijinho molhado em tias emprestadas, e dizer “Obrigado” e “Se faz Favor” em “loop”, só para honrar os meus progenitores. Já abri muito presente sob o olhar inquisidor dos parentes afastados, e lancei sorrisos abertos, só para os encher de qualquer coisa feliz.
Já andei aos trambolhões entre casas e igrejas, com sapatos de sola escorregadia e dedos apertados. Já rosnei de inveja, da displicência com que me escolhiam os padrinhos e madrinhas, que nunca apareciam para a festa, nem deixavam presente. Já me cansei de andar de carro, entalada entre as minhas irmãs, e de lavar raspanetes por estar sempre amachucada.
Lembro-me bem, da tortura impaciente com que se dispunham pirâmides de presentes enormes, e me calhava sempre um embrulho pequeno esquecido lá trás. Já me enjoei de picar pinhão nas estantes, de ver filmes a Preto e branco, e de olhar para uma mesa carregada de comida, cheia de fome, como quem olha de fora para uma loja fechada.
Todos os Natais, eu acordava na esperança de não receber meias coloridas, caixinhas vazias e livros chatos. Deixei de rezar para que não me apertassem com golas de pierrot e vestidos xadrez, e tudo o que eu queria, era que deixassem brincar, com as cenas boas que me deram, antes de mandarem dormir. Como tudo nesta vida, eu aprendi que não tinha que ser rena para fazer parte do Natal.
E em surdina jurei, que quando crescesse, me vingaria num Natal que fosse inteiramente meu. Já reduzi muita palhaçada, mas o Natal será sempre assim, e faz parte, passar a vida a tentar fazer parte e arte. Eu encaixo, faço e engraxo, mas nunca mais calcei uns sapatos apertados.

Comments

comments