O meu cavaleiro monge

Há 4 anos atrás fui para a Birmânia, durante um mês, com a minha melhor amiga.
A viagem não tinha qualquer intuito espiritual, que não fosse apenas a curiosa descoberta de um novo destino.
É engraçado, como o propósito de uma viagem pode condicionar a forma como se vive o mapa de antemão traçado. Nada faria adivinhar que em Mandalay nos cruzaríamos com um monge, que alterou o curso dos nossos planos, e transformou a descoberta de um destino, numa deliciosa incursão à essência da vida.
Esse monge chamava-se U-Vazira e tinha 25 anos. Conhecemo-lo quando visitávamos um templo.
Já há alguns minutos que reparávamos que o monge nos seguia de perto, rodeado de uma dúzia de crianças obedientes. À primeira oportunidade, perguntou-nos o nome, a idade e a nacionalidade.
Era tão curioso, que parecia estar a debitar um questionário, como quem tem medo de não vir a obter todas as respostas que precisa. Quando nos apercebemos, já estávamos num tuc-tuc com o monge a caminho do seu mosteiro. Durante dias, privamos com o monge ancião, com U-Vazira e os seus colegas. A maioria dos monges do mosteiro olhava-nos com timidez, a custo se aproximavam, e sempre que podiam, afastavam-se nos seus afazeres. Mas o U-Vazira não era um monge normal, era tão frenético como o vento rasteiro de uma corrente de ar. Queria levar-nos a todos os sítios, contar-nos todas as histórias e falar, falar até a noite cair e o céu ficar coberto de estrelas. Desde esse dia e até ao final da viagem, U-Vazira esperava-nos religiosamente às 5h da manhã na porta da pensão, com o seu manto castanho-avermelhado traçado sobre o ombro.
Eu achava aquilo “tão fora”, que lembro-me de ficar alguns minutos a olha-lo por detrás do vidro da entrada. Não tinha qualquer expressão de impaciência ou nervosismo. Esperava com tanta serenidade, que não me recordo que alguma vez tenhamos chegado atrasadas ao seu encontro. Percorremos a Birmânia com o U-Vazira.
E como o nosso amigo monge era aguerrido, tinha o seu passaporte confiscado, por ter participado nos conflitos contra o exército em 2007, e por isso viajava de autocarro durante dias, para se juntar, onde nós chegávamos de avião. E assim era.
Lá estava ele, de pé, de braços cruzados, pacientemente à nossa espera. U-Vazira confidenciou-nos que o seu maior desejo era ser professor de inglês, que não tinha acesso à Internet, e que a sua única forma de aprendizagem era o contacto escasso com os turistas que ia conhecendo. Tinha a sorte de se corresponder com alguns deles, quando o correio não se extraviava e as cartas não chegavam manchadas à tinta esborratada da humidade. Disse-nos com alguma mágoa que a maioria das pessoas prometia voltar, mas que apenas um o tinha feito. Senti-me impelida a prometer que voltaria. Mas nesse dia não o fiz.
Não é permitido tocar nos monges, mas no dia da despedida, quando o vi de novo à entrada sem qualquer expressão de impaciência ou dor, abracei-o. Abracei-o com força, e disse-lhe que sim, que voltaria a Birmânia, a Mandalay e ao seu mosteiro. E como não quero encarnar numa barata e a saudade aperta, já só penso no dia em que voltarei a atravessar a U-pein bridge em Amarapura, em conversa acelerada com o meu cavaleiro-monge.

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