MATRIOSKA DA CULPA

A-Matrioska-da-Culpa

É tão fácil encontrar mulheres guerreiras que quase nem damos por elas.

Elas estão ao nosso lado, em todo o lado, afundadas em pressas e pensamentos.

Elas passam por nós, nos corredores das escolas, nas ruas e fintam-nos no supermercado.

Elas conduzem ao nosso lado e às vezes até nos insultam.

Elas entram nas nossas casas como ajudantes, explicadoras, estafetas, amigas, vendedoras, familiares ou mais distantes. Erguem, levam, limpam, trazem, vendem, dão, tiram e fazem. Fazem tanto, todos os dias, que quase não dá para lembrar quando lhes perguntam por tudo o que já fizeram.

Tento olhar o rosto de cada uma delas, quando me dão hipótese sorrio, e se me deixarem falo. Sinto uma dívida tremenda com todo esse corrupio, sinto uma cumplicidade entranhada, na culpa que todas carregamos, dizendo ao alto que é leve, que é bom e que está tudo bem! Vejo-as sair à pressa, vestir à pressa, dormir à pressa, comer à pressa. Sinto-as a esgrimir a culpa do tempo que não lhes sobra e a negociar as sobras com o tempo que não têm. Estas mulheres já nem sabem se respiram. Vivem na dilatação diária das suas tarefas, imersas na imensidão dos papéis que assumiram, sem falas decoradas ou tempos de preparação. Eu sinto-me mal por não conseguir acudir, sacudir-lhes o peso, dar-lhes a nota graciosa do tempo, e a possibilidade de gozarem apenas o compasso da sua respiração.

Ás vezes confunde-me, que me possa ter perdido entre elas tentando o mesmo. Ás vezes penso que a pressa é um refúgio que a consciência dá ao coração, para que não se sofra tanto, por tudo o que não se consegue tentando. Estas mulheres habitam-nos sempre. Como um matrioska da culpa desdobrando-se em infinitas gerações. E ainda que nunca se tenha almejado um exército e ainda menos uma guerra. Não se pode nunca ignorar a quantidade de guerreiras que passam sem respirar.

*http://mariacapaz.pt/cronicas/matrioska-da-culpa-por-isabel-saldanha/view-all/

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