M de Miúda Maravilha

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A Ema ligou-me para uma sessão. Mas antes, foi generosa nas palavras e contou-me o propósito: “O objetivo é poder mostrar a todos, que as pessoas com alguma limitação física têm as mesmas capacidades, ou semelhantes de executarem qualquer função, desde que não lhes bloqueiem logo a priori o caminho… e não haja estigmas e preconceitos, que para quem está de fora acha que é um exagero da pessoa, mas a verdade é que não é… eu infelizmente já passei por uma ou outra, mas para relatos que oiço, mesmo assim tenho estado muito bem…” A Ema tem duas filhas, a mais velha, a Matilde nasceu prematura, ficou com lesões permanentes e com um diagnóstico de paralisia. Como todas as mães que amam incondicionalmente os filhos, a Ema luta todos os dias para avançar sobre o prognóstico mais pessimista da filha. E vence. Vence sobretudo porque ao lado de uma imensa força transbordante que o amor lhe dá, as coisas acontecem. A passos pequeninos, quase impossíveis de acreditar, a Matilde supera-se, empoleira-se e caminha. Conversámos muito, antes e depois da sessão. Inevitavelmente encolho-me perante a dimensão do desafio que a vida lhe colocou.
Nós sabemos a força que o amor tem, mas são poucos os que têm que o pôr à prova dessa forma: Sem brechas para o desânimo, sem contemplações nas rotinas, sem lágrimas públicas do medo, só força à mostra para que a filha veja no seu empenho, um aditivo poderoso ao combustível que a faz vencer-se. Não imagino, mesmo tentando muito, a luta diária que é necessária para que a normalidade se instale, quando tudo à nossa volta fica diferente. Fiz a sessão e conheci a Matilde. E a Matilde brilha.
Tem tanta energia que quando se apoia no nosso braço, sentimos os músculos a erguer juntamente com o seu sorriso gigante.
Quando estamos grávidas e nos perguntam o que desejamos para os nossos filhos, somos unânimes em responder: Saúde, tudo normal se puder ser. Não o dizemos por preguiça, dizemo-lo porque reconhecemos na diferença muita dificuldade. Porque não queremos que tenham lacunas de integração e de amor. Porque os desejamos capazes de ter uma vida autónoma, à luz das suas escolhas e das suas capacidades. Há algum tempo que não falo com a Ema, mas estou certa que a Matilde continua a vencer-se, e que a Ema se vence todos os dias.
No que depender de mim, o sorriso da Matilde erguer-se-á muito acima das suas dificuldades. E a cadeira de rodas, será apenas o suporte temporário, mais visível, de quem já nasceu preparado para rolar a fundo sobre a vida.
1 Beijinho desta vossa admiradora.
Isabel

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