Histórias de Vida. O meu festival.

Histórias tão verdadeiras que nem vais acreditar.

É um dos meus festivais preferidos. Estou lá batida todos os anos desde a primeira edição. É um festival de storytelling. E o que é lá se passa? Contam-se histórias de vida. Histórias verídicas, narradas na primeira pessoa, sem filtros ou condição. É no cinema São Jorge que é um sítio muito chato, porque tem aquela varanda magnifica, porque está na boca do metro, porque tem Lisboa aos pés e dá para ir ao Pinóquio comer um pica pau. E porque não há melhor alimento para a alma que uma mão cheia de histórias.
Mas há mais, sempre quis dizer isto:

Sou uma das embaixadoras do evento e tenho 3 bilhetes duplos para oferecer à melhor história verídica. Uma história curta, ilustrada por uma fotografia, como eu costumo fazer.
Têm até 4ªfeira dia 21 para me enviarem a história para o meu email:
isabel@isabelsaldanha.com

E como não há pica pau grátis têm que fazer like nestas duas páginas do evento, que até são daquelas simpáticas de acompanhar:
https://www.instagram.com/grantsportugal/
https://www.facebook.com/grantsportugal
(Print screen para comprovar e já está!)

E agora a minha história verídica, escrita hoje no calor tórrido do meu T2 com uma ventoinha nos pés:

A CONCEPÇÃO

Nunca me contaram como é que fui concebida.
Sei que não fui consequência nobre de uma lua de mel nas Maldivas, fruto do amasso na areia quente da noite, no tombo silencioso de uma pina colada. Sei o, porque o meu pai era homem casado e a condição ilegal pressupõe uma certa pressa.
Sei que a minha mãe era uma mulher ingénua e apaixonada e que a combinação mortífera das duas substâncias, dita uma entrega do caraças. Especulo assim, que terei nascido de uma combustão rápida, fruto de uma adrenalina indisciplinada, uma união não legitimada, mas uma noite das boas. Gosto disso.
Se pudesse escolher preferia ter sido um excesso de bebedeira que um sexo de consolação. E ainda que não acredite, que isso tenha alguma interferência no forjar do carácter, o universo não se vai chatear que legitime algumas das minhas arestas no prenúncio menos nobre da minha concepção.
Custar-me ia mais, saber-me gerada na complacência de um encosto desajeitado ou de um “já que aqui estás”.
Nunca tinha pensado nestas coisas, até que o atrevimento da vida me colocou sobre circunstâncias que não suspeitava viver. Até porque não suspeitava de nada.
Quando era pequenina, era apenas mais uma menina romântica.
Um plug-in que vem na pré instalação do sexo feminino, e que em mim, acusava altos níveis.
Se na altura pudesse e me deixassem, tinha coberto o mundo a trincha cor de rosa. Sonhava abrir as portas e ir para a escola montada num unicórnio brilhante, com uma saia de tule e um rastro de estrelas (que saia da cauda dourada e que ía traçando caminho, descrevendo formas florais cheios de purpurina e brilho.) Nunca pensei que os meus pais, fossem menos que um casal casado, legitimado pela sociedade ou pela igreja, casados em nobres fatos, com saiotes compridos, flor na lapela e um veu esvoaçante. E comecei à procura das molduras e dos álbuns do casamento. Como não estava a encontrar nada, e não queria confrontar os meus progenitores com a ousadia da minha curiosidade pensei como qualquer “toxico-romântica” pensa: “Eles esconderam as fotos” porque viveram com tanta intensidade o que sentiam que qualquer registo por mais belo que seja, seria pequeno para tudo o que foi”
Acho que foi nesta altura, que senti o primeiro confronto entre a estratosfera romântica e o hiper-realismo da vida. Os meus pais tinham ido jantar fora, aproveitei o momento e fui até ao quarto deles vasculhar as gavetas da cabeceira. Fui surpreendida pela minha irmã mais velha, quando já tinha mergulhado metade da cara na confusão da gaveta. Perguntou-me o que é que eu estava a fazer. Disse-lhe que estava à procura das fotografias do casamento da mãe e do pai. Ela avançou para mim. Empurrou-me para o lado, mergulhou a mão na gaveta e sacou, aquilo que mais tarde percebi ser, o B:I. da minha mãe. Abraçou-me pelo pescoço e apontou para o estado civil: Dizia SOL. Achei bonito. Tinha 8 anos não percebia. Olhei-a fixamente e ela disse-me com muita convicção: – A mãe e o pai nunca casaram. Também descobri há uns meses.
Comecei a chorar, como se naquelas frases curtas se encurtasse a minha ilusão. As nossas irmãs mais novas dormiam. A babysitter via televisão na sala e a minha irmã mais velha, achou que estava na hora de as acordar, no sentido literal e metafísico, para lhes dizer a verdade.
Antes que também elas, empreendessem a viagem ao confim das gavetas e da ilusão. E ainda que elas chorassem só do sobressalto do sono, porque eram ainda mais novas que eu, mais cheias de unicórnios e doces ilusões, e ainda que os nossos Pais nunca tivessem casado, hoje sei, que quando fui ao fundo da gaveta, não foi a ilusão que perdi, nem o fim da inocência. Nem foi nesse dia que abandonei a criança. O mais interessante naquela noite, o mais doce, foi aquele abraço esclarecido da minha irmã Margarida, aquele esclarecimento tão sublimar, quanto sublime, que a descoberta da verdade das coisas também põe a nu o melhor de nós.

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