FIM.

fim

Sabem aquela raiva “move-dentes” que se apodera da voz de uma mãe, quando as crianças, depois de deitadas, irrompem no nosso espaço de inclusão intelectual e espiritual?
Quando interrompem o processo criativo, seja ele qual for, a leitura emocionada de um diálogo ou nos obrigam a congelar um filme num momento de acção crucial? Ou a mudar subitamente de canal, quando o calor se apodera? De certeza que sabem.
Foi justamente num desses momentos, que a Caetana decide abrir a porta do meu escritório, pela quarta vez.
Levantei-me de rompante, mal senti os seus pés descalços a massajar a madeira. Bati com as mãos no tampo, para mostrar tudo o que iria acontecer a seguir. E quando me preparava para engrossar a voz, vejo a sua mão tremelicante a largar um papel sobre a porta entreaberta e o seu corpo, a dar a curva num ápice, deixando a sombra para trás.
O papel dizia “Abre”.
Hesitei. Voltei a sentar-me na cadeira e li o bilhete.
Em vez de estar a dormir, a loira tinha decidido transcrever um poema.

“Tu me chamas sobre as águas
Onde os meus pés podem falhar
E ali Te encontro no mistério
No mar profundo
Aguento. E pelo Teu nome vou chamar.
Para lá das ondas vou olhar.
Se a maré subir. No Teu abraço vou ficar.
Pois eu sou Teu. E Tu és meu
No mar Tua graça é abundante. As Tuas mãos vão-me guiar.
O medo acampa à minha volta.
E Tu não me falharás”

Óbvio, que amaciei a fera interna. Que me esqueci do que estava a fazer. Que encolhi a raiva a um canto e deixei transbordar a boa lamechice do orgulho maternal, pela sensibilidade plasmada da minha cria.

Mas o que safou a loira de uma “coça” não foi o poema transcrito de forma tosca. Foi aquele remate final, quando a voz do poeta, dá lugar às considerações da loira. Aquela frase de aparência tão ingénua, quanto sábia, que lhe valeu um beijo demorado na testa e a amnistia absoluta da sua insónia.

FIM. (escreveu ela) “é lindo não é?”

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