Filhas do bairro

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Sempre soube que um dia, quando viesse morar para Lisboa, era num bairro histórico que queria viver.
Quando conheci Alfama apaixonei-me. As casinhas a escalar a encosta, entaladas entre o Tejo na sombra de um castelo, entornaram-me as medidas.
As ruas estreitas para o amparo das dúvidas, a fala emancipada das crianças, a voz puxada às ancas do mulherio, o fado de chamariz, a paixão pelo berço, a pedra grossa das ruas e as pessoas, todas as pessoas, sempre as pessoas.
Alfama é fácil de amar.
Era uma tentação fazê-lo.
E embora haja uma crueldade nos amores fáceis, cedi em tudo. Embrenhei-me tanto nas ruas como nas pessoas, explorei-a, gozei-a como pude, o quanto pude, o que quis e como quis, fotografei-a de forma incansável, elogiei-a em textos, em sonhos, em poemas e em diálogos.
Tornei-me parte. Encaixei-me à força na sua história, cravei-me com vontade na sua morada. De adereço, fiz endereço, e o que começou como um caso ao acaso, virou namoro, investida, promessa, noivado e casamento.
Daqui a um mês mudo de morada.
E mesmo na prática forjada do desapego, é na hora do Adeus que tudo nos parece mais belo.
A paisagem e as pessoas, ganham a beleza que a demão da saudade pinta, e o meu fado vai-se escrevendo na despedida.
Viverei bem com a saudade(digo), levo-a num caixote comigo.
Vou sentir é mesmo falta das pessoas, das pessoas dos dias, os que foram contemporâneos comigo, os que me deixaram fazer da morada, palco. Dos que nos acolheram como filhas do bairro, e que nunca me fizeram sentir estrangeira ou perdida. Esses não vão numa caixa, vão no pulsar com que me faço à vida, vou levá-los das ruelas para as avenidas. Viverão para lá do Tejo, da sombra do Castelo, na saudade que franchisei comigo.
E ainda que esta não seja a última morada, em que me dê por inteiro. O povo sabe, sabe sempre, que não há amor como o primeiro.

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