Feliz entre caixotes

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“Caixote” é a palavra contemporânea que melhor me define no momento. Basicamente, e na semana passada, em que estive sem as loiras, não vi senão volumes, restos, roupas, dossiers, cabides, móveis, fotografias, quadros, molduras, panelas, livros, jarros, lâmpadas, caixas de ferramentas, sacos de lixo e caixotes.
Foram mais de 100 caixas, sem contar com os monos e volumes, que transitaram de Alfama para a nova morada, numa mudança que teve início de madrugada e terminou às duas da manhã.
Os dias seguintes, não foram nada românticos. O contra relógio da chegada das loiras, a pressão do trabalho à perna, a vontade de devolver um intelecto a um corpo funcional, os objectos do dia-a dia sumidos entre o papelão, os dísticos, contratos, a papelada da nova morada, o reconhecimento da zona, o sono curto, o parquímetro da Emel, os novos caminhos, o percurso até ao lixo, a descoberta do melhor café, onde é que encontro uma boa padaria?, onde é que consigo fazer a depilação, as unhas (baratinho), comprar fruta a preços de fruta, a inversão de marcha sem GPS, a procura das pessoas simpáticas, um sentido de bairro, a saudade do Tejo e a minha janela.
Tem sido intenso. Muito intenso.
As loiras aterraram no entretanto, pasmaram, vibraram, vasculharam, e já se sentem tão em casa, que o bairro de onde vieram, não passa de uma tela longínqua de memórias repetidas na saudade da mãe.
Agora é tempo de fazer ninho aqui. Arregaçar as mangas e regressar ao trabalho, à escrita, às minhas fotos, às minhas filhas e a mim. Esta semana ainda não vi caixote, ainda não parei, nem para me arrumar a mim mesma. Mas sinto-me tão viva, que apesar do cansaço evidente, e de tudo o que ainda há para fazer, acordo para a vida, toda contente que ela seja minha.
Foi por isso, que disse logo que sim ao convite do IKEA, e passei um dia com plafond ilimitado, a fazer shopping. E lá andei eu, feliz entre caixotes, como se tivesse o tempo e o mundo para decorar uma casa.
Amanhã é o dia da decoração final. Dar ao espaço aquele gostinho filha da mãe, e fazer em Loures, aquilo que devia estar a fazer na casa onde vivo. E o melhor, é que há neste empenho ao projecto do IKEA um certo sentido demissionário das minhas coisas, que me seduz.
Só porque uma das coisas boas da vida, é toda a ironia que ela tem.

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