Família de rua

IMG_0037_0600 Hoje não foi dia de brunch demorado, foi dia de pequeno almoço de penalty, apoio do paizão e shooting. Tenho tido tanto trabalho editorial e de campanhas que é uma lufada de ar fresco quando recupero a espontaneidade das sessões com as minhas clientes. Adoro fotografar, mas a diferença entre as grandes produções e as sessões individuais, além da pujança numérica de elementos, é o compasso, o ritmo e o ambiente, normalmente mais protegido. Esta semana recuperei algumas das sessões e fomos logos brindados (literalmente) com a presença da Nazaré enquanto fotografávamos no largo de São Paulo. E a Mariana foi estupenda, porque o bafo a tinto da Nazaré chegava para acordar a estátua do fontanário. E a minha miúda alinhou, aguentou-se e entregou-se. Quando a Nazaré chegou com a garrafa de tinto, bradava aos céus, vociferava contra as pessoas e ria à desbragada com ironia e sarcasmo própria do à vontade da uva e do ego esmagado. Não nos fizemos rogadas, e mesmo com os cantos acesos de uma boca a escorrer vinho e os gestos apressados de quem já se deixou ir há uns anos, aproximamo-nos para fotografar. Assim que lhe disse “Olá” a Nazaré poisou a garrafa e a agressividade e em menos de dois segundos já estava a pedir para ser fotografada. Difícil foi controlar a comunidade de sem abrigos do Largo que achou que era coisa grande e veio logo dizer que a Nazaré era família de rua e que dava jeito uns trocos pelos cliques. Como não chamo a mim mesma, a tarefa titânica de controlar o alcoolismo, ofereci para lhe pagar uma ginjinha no final, mas fui muito ingénua porque um shot está para um bêbado, como um smartie para um amante de chocolate e um sorriso rasgado não faz as vezes de um cobertor. Pelo menos na fotografia o amparo desfocado da garrafa, dá lugar à promessa da pessoa e o carinho está muito acima do gargalo da garrafa.
Obrigado Mariana e Nazaré:)

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