A EXIGENTE ARTE DO SORRIR

Tenho muito medo dos termos que roçam os extremos dos conceitos.
Tenho o mesmo cagaço em relação às certezas absolutas e às dúvidas permanentes
Mas há uma certeza que eu tenho: Ser mulher é bem mais exigente que ser homem. E sim, sou uma feminista no sentido mais “viril” da palavra.
E quando oiço algumas pessoas dizer, que as coisas mudaram muito e que o que não falta são mulheres, mais precisamente: Pequenas burguesas a queixarem-se do alto dos seus pequenos redutos. Fico pasmada.
Porque é revelador da dimensão da bolha que nos encerra. E nesses pequenos redutos, o que há em luxo, escasseia em oxigênio. Mas não é desse segmento de mulheres, dessa minoria bafejada pela sorte das grandes heranças ou dos bons casamentos, que quero falar. Seria cliché pressegui-las como bruxas, quando (quem me dera a mim) ter nascido com uns quantos T´s para pôr a arrendar. E mesmo esse pressuposto de conforto, pressupôe trabalho na sua manutenção. O conforto financeiro não é colo certeiro. E tenho algumas amigas que vivem com uma inteligência do caraças no conforto da sua bolha.
E há muita bolha que vive à espera de ser rebentada. E há uma maioria gigante que nem vive em bolhas, nem sopra bolhas há anos sem fim.
Eu estou naquele limbo intermédio superior, moro numa casa pequenina, num bairro familiar, com as minhas filhas e tenho a ajuda preciosa da Fátima, que vem a minha casa, umas horas por dia, nas semanas que as loiras coabitam. O dinheiro que ganho troco por experiências de vida. Não vivo com luxo, para me puder dar ao luxo das coisas que gosto. São as minhas opções. A minha Fátima é cabo verdiana e mãe de três rapazes, levanta-se às 5h30 da manhã e vai directa para o Colombo limpar as casas de banho. Nunca fez compras no Colombo. Segue para as quatro casas, que esgrima com a mestria de quem sabe, que cada uma delas representa a parcela necessária para compor o frágil puzzle do orçamento familiar. Apanha 6 autocarros por dia, passa 3 horas em transportes e 11 a trabalhar. Não vê as mochilas dos filhos quando chega a casa e tem uma pálida ideia do que andam a estudar. Quando chega a casa, faz panelas grandes de comida, para garantir, que sobra o suficiente, para se algum dos rapazes regressar para almoçar. E cozinha cá em casa para eu poder trabalhar. Sempre que trabalho em casa, almoçamos juntas e falamos de coisas triviais e de coisas vida: do trabalho, dos filhos e dos nossos problemas. E mesmo com um abismo de diferença, que não consigo amputar, há entre nós, uma conversa honesta, limpa, entre duas mulheres que trabalham para se sustentar. Ingenuidade a minha, se tentasse disfarçar quem sou, a quem arruma todos os dias os desperdícios de mim.
E quando eu estou no computador a sonhar com a próxima viagem, a Fátima está a pensar se alguma vez, conseguirá levar os filhos à terra que os viu nascer. Não se dão ao luxo da categoria dos sonhos, disse-me ela um dia, sem qualquer rancor.
Há uma ambiguidade gigante entre os nossos sonhos, uma disparidade absurda na forma como sorvemos a vida, e o espaço, o tempo consagrado ao lazer, ao prazer e ao casuístico. Mas no cerne do ser mulher, as nossas dores assemelham-se e os nossos sonhos para os nossos filhos, são iguais. Tenho a certeza que há um certo consolo mútuo nessa partilha.
A presença da Fátima é uma lição diária, nunca a vi senão a sorrir.
Não há que ter vergonha do que se tem, mesmo quando pouco se fez para receber, só deve haver vergonha no “ser”. Quando o ser não é honesto, quando os sonhos não são limpos e a inveja é uma tempestade interior.
Do que sei, daquilo que tenho agora, não vou conseguir deixar às loiras património material. O que lhes deixo é imaterial e a esperança que que saibam ter a força, a resiliência e a força da Fátima. E que vivam com a consciência de que há, na sua condição privilegiada uma gratidão para vingar em actos. E que não há verbo ter que valha o ser.
Quando a Fátima me vê há horas sem comer, sem que lhe peça, ela traz-me uma tijela de sopa aquecida para a frente do computador. Às vezes, eu queria muito rebentar a bolha da Fátima, mas a Fátima não quer viver no meu T2.
Perguntei-lhe na semana passada se ela achava que eu era rica e ela respondeu-me a rir:
– Então não é Isabel? Nunca a vi senão a sorrir.

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