Eu também estou a aprender

IMG_3971 Não há fórmulas universais de educação e o bom senso não chega para fazer de uma criança um homem. Quando fui mãe, só sabia o que devia fazer pelo que vi e pelo que fui vendo. E mesmo isto é claramente insuficiente uma vez que antes de sermos pais e mães não andamos para aí a vigiar famílias nos parques infantis ou a reparar como interagem nos supermercados, eu pelo menos, era mais dada a observação de outro tipo de fenómenos e agrupamentos que não os familiares. Como tive o azar de ter tido um pai inexistente e uma mãe muito egoísta, também não aprendi grande coisa sobre educação, há excepção de ter tido o galo de ser filha de uma geração demissionária que apostava mais na colónia e na roupa engomada do que em desengomar com carinho. A verdade é que quando éramos pequeninos os adultos eram referências intocáveis até desbotarem no doce pragmatismo da desilusão dos erros, que repetimos quando é a nossa vez de crescer.
Mas enquanto coexistiam no nosso eco sistema familiar, os nossos progenitores pareciam mover-se com destreza e segurança e mesmo os berros tinham a altivez das ordens de comando. Tudo batia certo como bate, até que bate tudo errado. Por isso, quando um adulto feria a inocência de uma criança com a revelação crua de um defeito ou de uma característica que se tornava ingovernável, o susto e o medo eram tremendos, como se de repente, assistíssemos na 1ª fila à derrocada de um herói. Não quero ser uma referência, não tenho feitio de estátua.
E para evitar derrocadas, sem lhes tirar o norte da minha existência e sem apresentar demissão do meu lugar de mãe, faço-me real, tão real que os olhos delas aprendem depressa a ver a luz nos meus espaços de escuridão.
Não me descontrolo no desvario do choro louco, não grito como se me fossem matar, nem alucino em gargalhadas que só adivinhariam loucura. Mas apresento-me assim, humana, orgânica, imperfeita, partilhando com as minhas filhas o palco fino das milhas dúvidas e hesitações. Talvez nunca venha a ser a mãe perfeita, mas sou a mãe delas, a mãe Isabel que às vezes lhes diz de coração aberto:
– Eu também não sei. Eu também estou a aprender. Eu cheguei cá primeiro é verdade. Mas eu não conheço tudo, eu não tenho todas as respostas, porque há uma parte gigante do meu ser que ainda é Pergunta.
Está certo? É errado?
Não sei.
Acho justo que a responsabilidade de tudo o que estamos a construir seja divisível, para que um dia possamos repartir os lucros de tudo o que edificamos e varrer juntas os despojos das nossas derrocadas.
E assim de pequeninas, talvez as princesas percebam que a melhor forma de ser Rainha é não deixar em mãos alheias a construção do nosso castelo.
E isto é tudo o que sei,
de tudo o que já vi,
vivendo.

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