Estupidamente perfeito (ponto)

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Há muito tempo que dizia, já só de mim para mim, para que a descrença não causasse fissuras no sonho, que queria viver das palavras.
Que o meu corpo magro é um repositório imenso de substantivos, adjectivos, advérbios, pronomes e verbos.
Que sonho com os dias em que as palavras são a única refeição que me alimenta e a única a quem me dou.
Que quero uma janela embaciada pelo vapor do Outono, uma lareira acesa à escala de um Inverno profundo, uma manta felpuda sobre o par dos pés e um copo de tinto, sem pressa de virar uva outra vez.
Que quero escrever. Escrever muito e escrever tudo. Sem o assombro do tecto do tempo, das contracções do dinheiro e do vício secular da perfeição.
Que quero fazer das folhas dos meus cadernos, um encontro romântico, estupidamente perfeito, entre a memória intermitente e o presente.
E que quero que as minhas palavras alcancem a serenidade do papel, mas que se imponham, na certeza, que só assim se fazem ideia.
E queria muito que o cálculo acidental do meu português, o somatório ébrio das minhas palavras sãs, a culpa isenta da minha decisão mais inteira e o rebuscar dorido das minhas memórias, criasse “quiçá” um livro. O meu. O meu livro.
E assim anuncio que à excepção de alguns compromissos já assumidos e demais conspirações, e por tempo indeterminado, pouco mais farei que dar atenção aos mesmos caracteres, com que hoje escrevo este texto.
Agradeço desde já à Papelaria Fernandes que me lançou o desafio de viver prazerosamente soterrada entre blocos e canetas. Os mesmos que vou levar comigo nas minhas alienações, lado a lado, com os meus compêndios de inspiração, os meus dicionários, os meus livros sagrados, os amores da minha vida e as minhas reservas de tinto.
E que o resto seja apenas o rascunho permanente do que é estupidamente perfeito: a dedicação àquilo que se ama (ponto)

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* Cadernos NUUNA | Papelaria Fernandes | Lindos de morrer | Perfeitos para se escrever

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