Devo estar a envelhecer (bem).

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Às vezes fico olhar para ti de costas enquanto te afastas, a medir o comprimento das tuas pernas, o teu balançar, num “galanço” tão espontâneo, que se não fosse de mãe querida, era de homem descarado.
Às vezes dizes: – Ó mãe para!
Desculpa-me, por me deter muito tempo fixa no teu rosto.
Amnistia as minhas mãos por se demorarem a sentir o diâmetro pequenino dos teus braços. Perdoa-me se te pego ao colo e se elevo como uma criança pequena, só para ter a certeza que ainda me sobra força para te carregar.
É tão engraçado, porque eu sempre fui rabugenta com as contemplações demoradas de familiares, enquanto exprimiam as mesmas frases:
– Está tão crescida!
– Pareces mesmo a tua mãe.
– Vai ter o nariz do do pai.
– As mãos são iguais às da avó Margarida.
Sempre resmunguei, de mim para mim, que esse comportamento era revelador da idade avançada de quem o proferia.
E dizia para mim mesma, que quando crescesse nunca o faria.
Com o tempo, também eu aprendi, que envelhecer traz o custo dos caldos e das ramelas nas palavras. E se, quando era criança, eu condescendia, era porque havia em todos eles um universo de referências, que me pesava e me afligia. Por isso, quando dou por mim a observar-te de forma demorada e a exprimir de forma antiquada, não é só porque envelheço em caldos e em palavras, mas porque encontro no teu balançar de menina, a criança que eu já fui.

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