Desenha-se paisagens em folhas brancas

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Aqui em casa consomem-se viagens em “prime time”, papa-se muito travel Channel, muito National Geographic, googla-se muito destino exótico, lambe-se muito Atlas, pesquisam-se viagens de sonho, poupa-se para milhas, suspira-se por feriados e pontes, improvisam-se check lists, sonha-se com malas grandes e trollies de rodinhas, acaricia-se o passaporte, desenha-se paisagens em folhas brancas, planeia-se em folhas soltas, sonha-se com vistos e carimbos.
Quando cheguei da América do Sul, adormeci-as todas as noites, com os mistérios da civilização Inca, enchi as suas cabeças com adjectivos novos, os seus sonhos de paisagens, a imaginação de novas personagens, e tenho a certeza que quando fechava a porta, não era aqui que dormiam… tenho a certeza que a noite era feita de carimbos naquelas folhas pequeninas, feitas de sonhos fermentados.
Mas quando a sobriedade do amanhecer, nos relembrava que ainda estamos aqui, não era do destino dos sonhos que as loiras falavam, era de São Tomé. E quando isso acontece, que acontece sempre, sentamo-nos as três, como amigas da primária num jantar de adultos e revemos, revemos tudo. Passamos a pente fino, as sensações, as paisagens, os encontros, a temperatura, os episódios e as nossas histórias. E fica tão claro e nítido para mim, quanto a brancura dos lençóis nos primeiros raios da manhã, que o património vivencial de uma viagem nunca é passado, que o que se cresce numa viagem destas é adubo para a alma, que o tempo passado foi tempo vivido. E eu, que sou toda do futuro, percebo nas vozes saudosistas das minhas pequeninas a verdade das frases mais simples e rio-me, por finalmente abarcar, o quanto recordar é viver.

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