Cresceste? Azar.

Há coisas para que a vida não me preparou.

Enfim, isto de ver os amigos espetarem-se, os conhecidos esbarrarem-se e os familiares viverem não nos “credita” para a vida. E o conhecimento empírico nem sempre observa atentamente tudo o que atentamente se observa. Nessa perspectiva pouca esclarecedora da vida, casei, na mesma perspectiva separei-me. O mesmo me sucedeu quando fui mãe, com a diferença que advogava saber mais de relações quando me enlacei, mas era reconhecidamente ignorante quando engravidei. E que falta me fez o empoderamento científico de alguns temas. Que o bom senso é uma escala informal, e não há ser humano que não se sinta no topo piramidal. Ainda hoje, sinto que é no patamar da educação das minhas filhas que gravita o maior buraco negro das minhas inquietações. Mas siga. Lancei o dado e avancei mais umas casas. Mas a vida não simplifica e com o passar do tempo, a trama adensa-se, como nas melhores novelas. Se já era difícil educar a tempo inteiro, passa a ser um desafio ainda maior, educar duas crianças, que passam a viver em casa dos progenitores, com intervalos de uma semana. É que se a mãe se tenta capitalizar pessoal e profissionalmente nesse período,  diminuindo a carga do heterónimo “mãe”, as crianças reclamam e com legitimo direito, o seu inquestionável e permanente papel de filhas. E isto ainda pode ser bem mais complicado, mas vamos pressupor (o que não é, infelizmente, a regra) que se tenha com o progenitor do outro lado da barricada uma boa relação, que permita concertar sem medo estratégias de educação. E não é só para saber o valor da fada dos dentes. Que eu percebi pela Camila que os dentes não caiam lá em casa, porque o pai pagava  dez vezes mais do que eu. E quando achamos que aprendemos a remar, eis que as partes partilhadas, achando-se consolidadas, se tornam a apaixonar. E entra no faroeste familiar, os outros, os filhos dos outros e tantas outras questões, que se fosse humanamente plausível fazer “reset”  ia directa para o Erasmus outra vez e só largava a pílula aos 53. E agora como é? Começas a conhecer o outro que se apresenta, e tudo o que ele traz consigo, que em nada te esclarece sobre o que já tens. E com outro, vêm os outros do outro e as outras, a ex do outro. E do outro lado da barricada, vem a outra, as outras, os outros e toda uma corte de antepassados e seres vivos. E quando te dás conta, percebes que o guião que tinhas para a vida era curto para tanto papel. O conhecimento empírico aconselha: Prossegue e aceita, que passado não é maleita e bagagem já tu tens. Mas os braços não esticam, a imaginação patina, são peritagens constantes, pequenos incidentes, raivas entre os dentes, a diplomacia fraqueja, surgem múltiplas questões e a filharada necessitada que não pode ser confrontada, com o facto de (também tu) estares a crescer.

E quando achávamos que íamos finalmente entrar na idade do pacífico, levamos uma das maiores amonas atlânticas.

E eu que fiz pouca praia este ano, vejo-me a rebolar nas ondas, a colher corais com os dentes, a esfregar-me nas rochas, a devorar areia com as entranhas do corpo. E oiço gritar o bom senso: – Flutua! flutua! E eu hesito muito, porque há uma certa sedução neste arrasto, não me debato, já nem sei se estou a respirar. Caraças para a corrente que não é suficientemente forte para nos por a milhas. É mais um agueiro circular, que nos tira o ar, nos enche de areia e nos faz marear. Invariavelmente acordas, na mesma praia onde te foste afogar, e a vida retoma a sua ironia e o compasso circular.

E ouves o conhecimento empírico soletrar:

Cresceste? Azar.    


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