- Considere isto uma borla de Deus!

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“O amigo acredita em Deus? A pergunta apanhou-me desprevenido. Deus? Eu estava dentro de um táxi, tinha fechado a porta e indicado o destino (…)”
Para lhe ser sincero, respondi: – Acredito mais no Diabo! Diabos de saias, patrões diabos e semanas infernais. Se tivesse tido mais sorte, talvez tivesse mais fé. Olhe, sabe o que é que lhe digo? Continuei.
– Fez a pergunta ao homem errado! Se buscava consolo, acrescento… nem nas pessoas acredito!
– Mas porque Diabo, é que me pergunta isso? E…já agora, vire aí antes à esquerda , que assim como assim, quem se mete em atalhos mete-se em trabalhos, e é para lá que eu vou.
O taxista riu para dentro, vincou as mãos sobre o volante e cá vai disto:
– Ó homem! Essa vida de enforcado que o senhor leva, com essa gravata a fazer lhe as vezes de uma corda, não deve ser mais infernal, que esta camisa sintética de 2 contos que trago há dezasseis anos, coladinha ao corpo.
E continuou:
– Inferno, todo o homem sabe que existe. Basta viver!
Só lhe perguntei se acreditava em Deus, porque quando entrou no carro, topei o suspiro demorado e o perfume floral. Hummmm! E pensei cá para mim, que eram tudo tiques de homem de fé.
Felizmente, só faltava mesmo, dobrar uma esquina, para eu chegar ao meu destino.
Nunca fui pessoa de falatório esotérico ou partilha sentimental, muito menos com um estranho, ainda menos num táxi e nem por sombra sobre religião. Como não estava interessado em continuar a conversa, achei por conveniente, soltar um sorriso, na esperança de umas tréguas.
Assim que fez sinais de abrandar a marcha para parar, perguntei-lhe apressado:
– Ó Amigo, quanto é que lhe devo pela corrida?
Ainda não lhe tinha espreitado a cara. Mas, antes que dissesse alguma coisa, mexeu-se, apoiou o cotovelo magro no pendura, e com os olhos sorridentes, respondeu:
– Considere isto uma borla de Deus!

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