Consegui resgatar à vida, tudo o que lhe é Essência

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Uma das boas coisas que fiz estes dias foi reler algumas das entrevistas do Lobo Antunes. Conheço poucas pessoas, cujas entrevistas sejam pautadas por frases tão balísticas. Sem qualquer pretensão de citação, ficam-me na memória como os melhores paladares da vida. Na última entrevista de Lobo Antunes à Visão, o título escolhido foi uma dessas frases, que pronunciada à laia de conversa, é suficientemente paralisante para levar o jornalista a afiar o lápis na sua própria mandíbula.

“Não tenho jeito para viver.” ALA

E quando se diz uma frase destas, para lá de toda a psicologia subjacente…a verdade é que não se devia ser obrigado a dizer mais coisa nenhuma. Não sei se é só a mim que me comove, mas sou capaz de passar horas a lamber uma frase. Imagino que há frases que só podem ser pronunciadas com significância, por dois tipos de pessoas, as muitos simples, e as altamente complexas. Não acredito na classe média de algumas frases.
Acredito sim, que podia ir ao café na aldeia de Lameiros em São Luís, e ouvir o Ti Manel a dizer, enquanto puxa à cadeira: – Não tenho jeito para viver. E depois imagino, uma alma forjada em vida, uma mente irrequieta, uma inteligência dilacerante, numa voz seca e enfastiada pronunciando: – Não tenho jeito para viver!

Perdoem-me os medianos que não se acusam, mas sonho viver para pronunciar frases assim. Não no contexto de uma entrevista, mas no mais banal contexto da vida. E hei-de fazê-lo, sem qualquer necessidade de imortalizar a frase, lápis ou caderno. Vou dizê-las com a mesma displicente autoridade, do António Lobo Antunes e do Ti Manel. Terei nesse instante pronunciado, a mais suculenta certeza, que consegui resgatar à vida, tudo o que lhe é Essência.

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