Como se não fosse o último dia

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E agora? Como é?
Um cagaço do caraça para ambas.
Hoje foi o último dia de aulas da Camila. O Adeus final à creche e a toda a família de amigos, professora e auxiliares, que acompanham o meu “Pigmeu da montanha”, desde que ela mal se sustinha nas duas pernas gordas. Ela parecia tão descontraída, tão feliz, como se não fosse o último dia, nem o penúltimo, só mais um.
Adivinho que essa característica do desapego, tenha herdado aqui da mãezinha: “Vamos lá a isto, custa tudo menos a sorrir!”
Quando a entreguei na sala, as paredes já estavam despidas, os corredores vazios, mas a sua mão papuda (ainda), estava tão agarrada à minha, ou eu à dela, confesso que não sei qual das duas fazia mais força. Ela ficou. Feliz, como ficou desde o primeiro dia que a deixei na creche, como se não fosse o último, nem o penúltimo, só mais um.
A mim, que já não ando de bibe há uns anos, que já me sobem os açucares e as sensibilidades, comovi-me.
Fiquei saudosista, melancólica, apegada, com vontade de fazer durar as gordurinhas na tua pele, o colo pesado, o Panamá ridículo das semanas da praia, a t-shirt coçada com o logotipo da creche, as festas de fim de ano que não acabam mais, os moches insuportáveis de pais repórteres, as missas chatas, os discursos gongóricos da directora e a voz enjoativa com que nos chamam genericamente de “mãe”. Fiquei com saudades dos bibes bordados com o nome da Caetana, em 5 anos nunca te consegui levar com um bibe certo! Fiquei com saudades daqueles desenhos de guache que parecem cromos repetidos, mas têm sempre o valor de obra única, e até senti saudades, da vontade que tinha de me livrar de alguns e de guardar todos.
Porra! Vou ter saudades daqueles presentinhos de quermesse de igreja, cofres para anéis, que não uso, cabides que não utilizo, porta moedas reciclados, t-shirts com mãozinhas e tudo o que tive direito a ter, enquanto te limitavas a ser, só pequenina.
E agora ? Como é?
Vais gozar um Verão do caraças. O sol, a areia, o sal e o campo vão te ajudar a crescer. E em Setembro, vais para a primeira classe. E eu, vou ter que te tirar o bibe que te protegia das nódoas e da roupa descosida, e vou te entregar já crescida, na escola.
E como te amo e te conheço, sei por consolo, que vais entrar, como se não fosse o primeiro, nem o segundo, só mais um.

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