Chamo-te Boneca.

IMG_0298_8232(Escrevi este texto no dia 17 de Agosto de 2005, estava grávida de 8 meses. Descobri o hoje enquanto vasculhava um antigo blogue e achei delicioso recordar.)

Eu sei.
Vais exigir. Sei que vais chorar. Hás de rir também.
Tenho medo. Medo que não me deixes ser criança porque as crianças não pegam em crianças. Vais querer beber, vais beber-me. O meu corpo vai trabalhar às ordens do teu apetite.
Há 9 meses que não como presunto. E eu adoro presunto.
É verdade, vais ser filha para eu ser mãe.
Vais ser minha responsabilidade. Eu não tenho empregos fixos. Ser mãe é um emprego. Vais querer a calma dos dias quando ainda sonho com agitação.
Vou ser egoísta.
O amor é um acto de generosidade.
O amor nasce contigo.
Eu sou aquela que te encostou as mãos ao corpo sob uma camada de pele. Já me avisaram que é para mim que vais olhar à procura das respostas que não tens.
Que coragem filha, acreditar sempre em alguém!
Se não gostares podes dizer. Fui eu sim, quem mandou pintar as riscas no teu quarto. Eu vou ser a mãe dos laços e das fitas! E depois vais dizer que era pirosa à frente das tuas amigas.
Eu vou ser tua amiga. Para ser tua mãe tenho que ser a tua amiga.
É um cliché. Os amigos às vezes são clichés.
Vais abrir a boca. Como a tua mãe gosta de falar!
Se eu te deixar, ficas. Ficas sempre nos sítios em que te deixo. Nunca te vou deixar.
A espargata da vida. É assim que vou brincar no dia do teu nascimento.
Chamo-te Boneca.
Chamo-te vendedora de manjericos.
Chamo-te Borreguita.
Sou o teu alimento.
Sou a tua mãe.
Sou tua progenitora, educadora e maçadora mãe.
Tenho medo. Às vezes tenho medo que me topes.
Que pressintas incompetência, onde só existe tentativa.
Vou tentar bem. Não sou profissional, não te disseram isso.
Ainda não te disseram nada.
Não faz mal filhota.
O amor também é feito de silêncios.
Eu sei.

Comments

comments