Tenho uma amiga que

Ontem uma amiga morreu.

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Ontem uma amiga morreu. Não há outra forma de escrever isto. Foi-se de uma forma tão inesperada que custa não esperar que seja mentira.
A vida vai continuar por cá. Mas fica um vazio pálido e estranho. Uma responsabilidade absurda por continuarmos todos vivos.
Estava refastelada no sofá a meio de um filme da treta, quando me telefonaste. Fui à varanda para ouvir melhor, falavas tão atabalhoadamente que no meio da morte só consegui perceber riso. Pela forma como falavas, achei que estavas a gozar. Como se alguém gozasse com a morte de alguém. Mas eu estava no sofá a ver um filme ridículo. Desculpa. Mas não consegui passar das pipocas à Morte, e já não consegui regressar às pipocas, quando as palavras se fizeram nítidas e ouvi na tua voz chorada:
– Ela morreu.
Fiquei debruçada na varanda, sem saber como se acode da morte quem já morreu. Naquela sensação estúpida, que o embaraço na busca da palavra certa faz prolongar. Perguntei coisas. Aquelas coisas, que são factos, que pouca interessa à tristeza que se quer chorar. Quando desligaste fiquei assim a olhar para o sofá amarrotado, para um filme em pausa, para a imagem congelada e para a vida que já não estava lá.
Tinhas a minha idade e os teus filhos têm a idade das minhas.
Falamos na quarta-feira e combinamos que íamos jantar um dia destes.
Não fui sincera. Repeti essas palavras na cortesia da promessa de um “Até já”. Como já te tinha repetido todas as vezes que falamos antes por outro assunto qualquer. Não te salvava a vida se te tivesse levado a jantar, mas tinha te dado mais tempo do meu. E vou ter sempre pena por isso.
Sei que só há uma forma inteligente de vingar a morte:
A celebração da vida. Mas é tudo tão retórico neste vazio…
Antes de desligar o telemóvel a nossa amiga disse-me:
– Bebe um copo por ela e faz-lhe um brinde. Tenho a certeza que era isso que ela gostaria.
Fui à cozinha e enchi um copo. Da cozinha fui para a varanda. Estava frio. Olhei para cima. Olhamos sempre para cima quando morre alguém. Sentia-me absurdamente viva. Quis dizer qualquer coisa e não consegui. Ergui o copo ao alto e bebi. Tenho pena que a vida não te tenha dado mais tempo. Aquele tempo que também damos aos filmes da treta segundos antes de recebermos um telefonema triste. A vida vai continuar por cá.
E eu bebi o copo até ao fim.
Até já miúda.

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CONTA-ME UMA HISTÓRIA FELIZ.

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“Quanto menos tabu forem estes assuntos, mais nos ajudamos e partilhamos experiências. Acima de tudo acho que durante este tempo, em que tentei, fui operada e tive de fazer tratamentos, nunca deixei de ser feliz, de viajar, e de fazer as coisas que gosto! São tratamentos duros mas a vida são dois dias! Temos de aproveitar!” Teresinha

Pedi à Teresinha que me deixasse partilhar uma fotografia, e mais do que isso, um pouco da sua história feliz.
Porque ela é sem dúvida uma das grávidas mais feliz que já fotografei. E não foi apenas, porque esteve uma dezena de anos a tentar ter um filho, foi sobretudo pela resiliência do seu bom humor, pela forma resolvida com que se entrega a vida. Porque a consome sem filtros, sem peneiras e sem o pensamento rebocado nos outros.
É raro, é bom, é são.
Nem todas as mulheres engravidam ao primeiro lapso da pílula, e as histórias duras, não acontecem só aquela amiga de uma amiga minha. Há muitas mulheres a consolar as dores nas almofadas e há um milhar de histórias para partilha, que não fazem a conveniência dos dias mais felizes, mas precisam de ser contadas, para serem ouvidas.
A Esperança dos dias, faz parte de um tratamento de fundo, aquele que dá espaço vital de cultivo às coisas boas da vida.
E pelo que sei, por quem luta, a exclusividade da história complicada, é um mal escasso, que se troca de bom agrado, pelo colectivos dos finais felizes.
Obrigado Teresinha pela partilha.
Essa miúda que aí vem, já nasce com a sorte grande de ter uma mãe assim.

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E AGORA? COMO É?

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Uma das minhas melhores amigas separou-se há umas semanas, nesse dia ligou-me a dizer que tinha consumado a decisão com uma conversa directa e assertiva. Não hesitou, não vacilou e a voz não lhe tremeu. O seu discurso emanava na velocidade o “cagaço” óbvio da decisão. Deixei-a falar, deixei a discorrer sobre os motivos, revendo-os, como se reforçasse para sí mesma a certeza da sua acção. Quando lhe começaram a escassear as palavras, quando a voz cansada se enramelou de dor, senti-a respirar profundo e soletrou: – E agora? Como é?…
Não gosto de conselhos vagos em situações difíceis. A amizade compadece-se das melhores verdades. E agora?
Agora vai ser difícil. Vai ser diferente. Mas vais conseguir. Como eu consegui.
Nos próximos tempos vais rever muitas vezes os motivos, vais ser atravessada pela incerteza de tudo o que deixas para trás. Vais ter medo. E vais te sentir irremediavelmente sozinha, mesmo quando tiveres rodeada de todos os que gostam de ti.
Mas tu estavas sempre tão bem disposta…?
Parecia eu sei. Mas sabes, convém fazer uma certa cerimónia com a dor. Dá-lhe espaço de manobra para o teu próprio crescimento, mas lembra-la sempre, que quem comanda o rumo das coisas és tu. E que a decisão que tomaste tinha como Norte, ser mais feliz.
Sabes que a separação, faz-me sempre lembrar o pânico que nos assalta quando mudamos de casa, e nos encontramos sozinhas entre os caixotes espalhados pelas divisões. Parece tão titânico o esforço, que a vontade de abraçar a nova morada é substituída por uma vontade súbita de ir dormir para um hotel. Os caixotes têm escrito o que contêm, foste tu que os arrumaste, lembras-te? Parecem muitos, demasiados e és só tu. Os teus braços e os teus olhos só alcançam o esforço de tudo o que há para fazer. Não faças nada hoje.
Deita-te entre os caixotes, no colchão improvisado da tua decisão. Amanhã quando acordares e começares a desembrulhar devagarinho, os despojos dessa guerra, parecer- te-ão as primeiras tábuas da ponte que mandaste construir. E devagarinho a ordem normal das coisas que conheces, dar-te-á a confiança que precisas para enfrentar o que ainda não conheces.
E agora?
Agora chora um bocadinho. Que não se muda uma casa sem se lavar o chão.

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“E gosto de ti assim…”

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Vou repetir-me: É a minha forma de te pedir permissão para publicar, quando sei que não és especialmente dada às redes e ao social:)
Mas hoje passei pela tua pasta (franqueza tecnológica) e fui espreitar.
Entretanto já foste mãe. A Mariana é minha afilhada, mas tu és a minha melhor amiga. E gosto de ti assim, esquiva, difícil de apanhar, solta, talvez até em demasia.
Não sei se te lembras, quando fui visitar a Mariana pela primeira vez dei-te uma PEN usb em formato de rolha. Talvez ninguém te tenha dito mas estes primeiros meses têm uma factura elevada na memória.
Faz parte do processo de amar, esquecer o quanto nos cansam. Utiliza a Pen e liga-me de vez em quando.
Quando regressar ai a casa levo-te post it´s.

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Tenho uma amiga que nunca disse: – Amo-te.

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Tenho uma amiga que nunca disse: – Amo-te.
Até aqui, nada de anormal, se assumirmos que nunca teve o privilégio de sentir essa emoção, mas não é o caso. A minha amiga já amou, ama de momento e engasga-se só de pensar ao de leve, na verbalização destas duas palavras.
Eu sei, porque a conheço como ninguém, que parte do seu silêncio veio a reboque de uma família numerosa, pouco dada à expressão de afectos. Mas como ela acha, que é uma durona, recusa-se a aceitar a legitimidade que lhe assiste: A família disfuncional, a orfandade sentimental e a origem do mal. O problema é que ela sofre com isso, o mais longe a que se atirou numa relação chegou a um: -curto-te! Mal balbuciado e enviado por sms.
Quando chegaram os iphones e o teclado emoji, a sua vida sentimental ganhou um suplemento vitaminico, e como quem se esconde atrás de uma máscara: ela desatou a enviar smiles, assobiando corações, bonecos de mãos dadas, macaquinhos tapa os olhos e toda uma panóplia de cliparts, que serviram durante meses, como entrada a uma refeição que tarda a ser servida. Mas aquele aperto do olhar a dois, a mão entrelaçada e a música que chega ao fim, o silêncio a abrir mãos…e ela, nada….o olhar, que de paixão passa a pena, de pena a clemência, e sempre nesta sequência. A minha amiga, a quem já aconselhei que bebesse, diz que o temor pelas palavras é tanto, que lhe devolve a sobriedade ao corpo.
Já tentou na surdina da noite, dizer-lhe junto ao ouvido, e acaba sempre a dormir com a cabeça cheia das palavras que não consegue dizer.
Diz-me com tristeza, que o que mais lhe custa é que lhe digam:
que quando se ama, se fala.
E que quem sente, não cala.
Porque ela diz que sente.
E sente que quando cala,
não é gente.

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A minha amiga mais feliz

IMG_0758_6397Tenho uma amiga que quando me liga, costuma dizer sempre:
Estou te a ligar porque és a minha amiga mais feliz! Eu rio-me, agradecida. Sou feliz sim e quando não sou tanto assim, colo-me a ideia de que a tristeza é uma condição provisória, nem sequer lhe dou a importância de construir um abrigo, acho que quando nos defendemos muito o inimigo anima-se. Às vezes não percebo que haja tanta gente a viver numa consciência envergonhada de ser feliz, como se a tristeza fosse a maturidade da vida e um adulto feliz fosse um palhaço por disfarçar. Pouco me interessa se a alegria em excesso possa ser confundida com uma bebedeira em vida. Problemas toda a gente tem é um facto. Também nem toda a gente nasce com a sorte de ter um plug-in que dá “amonas” valentes a tudo o que tenta minar essa construção.
É inevitável, a tristeza irrompe sempre pela vida, o importante mesmo é não lhe dar conforto que chegue para se instalar. Como aquelas pessoas chatas que para apressar recebemos em pé.
Penso imensas vezes sobre as razões porque insisto tanto em ser feliz. Acho que à força de querer tanto já não sei ser outra coisa. E não tenho medo nenhum de o afirmar, porque também existem uns tantos teóricos da vida que acham que as coisas boas se guardam no cofre, eu prefiro saldar gargalhadas numa venda de garagem. Acho que é inegável que existe uma cumplicidade grande entre o sofrimento bem digerido e a maturidade. As melhores pessoas que conheço não são as tristes, são aquelas que digeriram a tristeza da vida e converteram isso em fermento de carácter. E essas pessoas, também não são aquelas que passam a vida a acusar a sua condição de orfandade para se fazerem grandes empoleirados na tristeza. São aqueles que choraram na altura certa, que deram o desconto ao sadismo da vida, que condescenderam desde novos com as incongruências do destino, que não desistiram dos seres humanos só porque nem tudo era perfeito, nem ficaram reféns na procura passiva do sentido de justiça. Essas são as pessoas TOP! São os amantes da vida. A malta que aprendeu a sacudir a poeira dos maus momentos com património de felicidade, são os que acreditam genuinamente nas pessoas e por isso ainda se surpreendem, são os que perceberam a dimensão do tempo e por isso conseguem viajar a partir de qualquer lugar. Essas pessoas que conheceram a evidência mais crua da vida são as que mais conseguem criar, são as que olham para uma planície árida e imaginam uma floresta imensa. Essas pessoas sentem-se responsáveis por animar o mundo, só porque se sentem agradecidas por serem animadas. Essas pessoas são guerreiras porque acreditam que o sentido maior da paz nasce na tranquilidade serena de aceitar que algumas batalhas da vida são feitas para perder. A dimensão do tempo é a dimensão da vida. O passado tem apenas o efeito edificante de nos lançar para o futuro e o presente é o lugar em que acontece tudo. Ninguém cuida muito das pessoas felizes porque elas parecem estar sempre bem. E as pessoas felizes sabem que têm que estar bem porque aprenderam a cuidar de si mesmas.
Não sei se sou a amiga mais feliz, mas sei que enquanto vou podendo, vou vivendo, sem medo, de ser apenas, feliz.

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