filhas da mãe

Eu sei.

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Dizem que às vezes te trato como se fosses um bebé. Eu sei.
Quando estou na sala, e te dá o sono e a manha, arrasto-te pelos braços até à porta e quando somos só as duas, pego-te ao colo. Não me interessa o que pesas e o que medes, pareces-me sempre incrivelmente bochechuda e pequenina. Não tenho saudades de um bebé pequeno, porque tu és o mais pequenino que tenho de mim. Quando fazes birras, que ainda fazes, e me zango contigo, mostras-me os dedos papudos que confirmam o que ainda tens de redondo. Depois pego-te nos dedinhos carnudos e beijo essa concha húmida de mão com beijinhos demorados. Dizem que já a sabes toda. Talvez seja verdade. Porque essa toda sou eu. A mãe magrinha que arredonda no olhar a tua forma só para te ver pequenina.

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Não sou ferrenha mas sou benfiquista.

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Não sou ferrenha mas sou benfiquista.
A minha mãe é do Porto, o meu pai era do Belenenses e metade das minhas irmãs é do Sporting. E o Pedro é do Braga:) Temos para todos os gostos:)
O pai das loiras é lagarto mas não resisti a mandar-lhe as fotos das Filhas da mãe ao rubro, enquanto se empinavam na varanda da rua a cumprimentar os pares que desciam ao Marquês.
Vestiram todo o vermelho que tinham nos armários, mesmo que isso implicasse uns collants cheios remendos, a t-shirt da maratona e um casaco vermelhinho dois tamanhos baixo. Pegaram no meu batom vermelho e fizeram riscas de índio nas bochechas, “SLB” na testa, pintaram a boca e a manta até onde podiam.
Quando a vitória era mais que certa, pegamos em tabletes de chocolate e sumos de pacotes e juntámo-nos à cascata de gente que descia. Nunca a Camila ouviu tanto palavrão junto.
Mas o compasso apressado da festa, os tubos de escape, as bandeiras gigantes, os cânticos em uníssono, as famílias inteiras, confundiam a gramática. Quando chegamos aos cordões de segurança, a Caetana delirou com a ideia de ser revistada, e antes que o polícia a mandasse avançar, já ela estava de braços erguidos e pernas afastadas, como se tivesse sido catada numa rusga, cheia de gomas nos bolsos.
Os ombros ainda doem ao Pedro das cavalitas forçadas, porque a festa era extensa e a visão panorâmica é a tricampeã da realidade. Voltamos para a casa a cantar pela rua, de mãos dadas e cheias de pica. Capitalizamos o momento da vitória num momento de família. Acho que é por isso, que celebro com ânimo estas conquistas, porque no dia da vitória, parece sempre tudo um bocadinho menos egoísta.

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O cabelo cresce loirinha

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Andaste a fugir à tesoura durante 6 meses.
Quando o pai cá esteve, passei-lhe a incumbência, mas a agilidade feminina levou a melhor e regressaste à mãezinha com o mesmo cabelo aciganado com que te entreguei ao pai.
Ontem cedeste aos meus argumentos e deixaste que eu te cortasse o cabelo depois de despejares dois quilos de máscara hidratante, que fez com que a Camila desse um duplo mortal na banheira logo a seguir.
Tinhas o cabelo miserável, mas tu achas que eu exagero na adjectivação e quando viste no chão os cinco dedos pareceu-te toda uma pata de elefante.
Rebentaste em lágrimas, agarraste as pontas molhadas entre os dedos e soluçaste, como se fosse um membro amputado e uma despedida para sempre. Não contente, disseste-me que te tinha arruinado o dia, a semana e a vida (quem sabe).
Sou mulher, minha menina, já chorei muita franja de escovinha cortada pela minha mãe, já saí do cabeleireiro com vergonha de me ver reflectida nas montras e já roguei pragas ao impulso colectivo das tintas de supermercado. Faz parte. O Pedro estava surpreendido com o nível da crise (tem dois filhos rapazes) com a grossura da lágrima e com o exagero da adjectivação, que é o melhor teste de ADN em matéria de crise:)
Foram 15 minutos de crise até que o mundo ficasse tão acetinado como a máscara que colocaste no teu cabelo, foram alguns duplos mortais na minha caixa torácica e até valeu abrir uma colheita especial de 2011 (sempre fomos boas nas boas desculpas).
O cabelo cresce loirinha e felizmente, nós também

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O tempo passou.

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O tempo passou. As coisas não complicaram. Ficaram diferentes. Parecia tudo mais pequeno, mais íntimo, mais controlável.
E de repente o mundo ficou enorme, o meu colo ficou pequeno e as vossas pernas esticaram. O amor que sinto por vocês alarga na mesma proporção com que tudo parece fermentar à nossa volta. Mentia se dissesse que não tinha saudades. Mas há um mundo inteiro à nossa espera.

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RECTA FINAL….

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Estamos na recta final do ano lectivo. Percebi isso, pela dificuldade que tive em encontrar um explicador de matemática que elevasse a negativa da Caetana para um Satisfaz. Também percebi isso pela súbita inflação do brio das minhas crias, na realização das tarefas propostas pelas professoras e percebi por acréscimo, que vem aí um tornado de 3 meses de férias….que é um rival à altura da negativa a Matemática. Aliás, não sei se a dificuldade da equação não o suplanta. Sem apoio de retaguarda é uma sensação de semi-pânico pensar em ocupar duas crianças durante 90 dias. Prolonga-las em Atl´s na escola, soa-me logo a namoro prolongado sem a chama da paixão, é preciso muda-las de cenário e pedagogia, afinal de contas, é para lá que regressarão no final da minha pena:)
Arrasta-las comigo é impensável, mantê-las em casa é um cenário de terror. Quando penso nas ocupações de tempos livres imagino-me, no mesmo transfer matinal, só que com menos roupa, se contarmos com a benevolência tardia do verão. E depois, não posso esquecer que há sempre lanches, material obrigatório e um cem número de tarefas para cumprir que fazem de mim uma espécie de mãe escuteiro.
Googlei “campos de férias longe” para ter a certeza que a motorista cá de casa apenas teria que cumprir o ponto de partida e o de chegada, mesmo que elas tenham que sair de casa naquele dia, com o saco de cama, a mochila oversized, o cantil preso no cinto, o casaco de frio atado à cintura e as chinelas enterradas à força no único bolso disponível.
Imagino-lhes logo o sorriso alado distribuído universalmente pelo rosto, a dimensão da aventura, o desbravar de novos mundos, os amigos estreantes, os hinos do campo à volta da fogueira, a roupa suja a acumular num saco e o meu sono, isento de insónias, livre de culpa, carregada de opções, com laivos ligeiros de saudade e muito vinho branco.
Quando era pequenina também tive que andar a sprintar a matemática.
Mas se há uma disciplina, que nunca nos ofereceu dificuldade cá em casa, e que nos lembra que no final de contas (estejam elas certas ou erradas) somos todas filhas da mesma mãe é o Estudo do Meio.
E mesmo que inferiorizado pelos seus pares, a verdade mais absoluta, é que não há Fim que valha, se não tivermos o Meio certo. heart emoticon

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“Bem mais grande”

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Não te via há uma semana.
Já tens 10 anos.
Não é nada. Eu sei.
Mas não sei se sei tudo o que isso quer dizer.
Pareces-me sempre enorme, “mais grande” como já nem dizes.
Já falas com tanta certeza das coisas.
E já me gozas com piadas próprias.
Rimos juntas de coisas do saber e do que ninguém sabe.
Às vezes queria ser a tua amiguinha dos recados de papel.
Tenho muitas saudades do monopólio do destinatário.
Já tens 10 anos.
Não é nada. Eu sei.
Tens umas pernas compridas e umas ideias que as ultrapassam. Os teus cabelos já se mexem com coreografia e tu já te vestes como se fosses directa para o Instagram.
Escolhes os teus livros, as tuas roupas, as tuas amigas e as tuas ideias. Mas sei que se te dessem a escolher a progenitora me escolhias a mim.
E não tenho qualquer dúvida, que era a ti que te escolhia mesmo quando me sinto a competir com o mesmo mundo grande que te dei a descobrir.
Já tens 10 anos.
Não é nada eu sei.
E o meu amor por ti é sempre “mais grande” como já nem dizes.
Digo eu por ti que já sou “bem mais grande” que 10.

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Carta à Olívia

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A Ana pediu-me que incluísse na nossa sessão de recém nascido um texto livre dedicado à filha. Escrevi sem filtros, a carta que gostaria, se o tivesse pedido, que escrevessem à minha filha.

“Querida Olívia,

Não te conheço. Mas já senti o calor da vida quando te peguei nas minhas mãos. Tudo em ti ainda é tão pequenino para um Mundo tão grande.
Há quinze dias ainda estavas no banho mais sólido do mundo, na ternura das melhores paredes da nossa primeira habitação. Também não me conheces. Mas já me deixaste que te pegasse sem medos e te aconchegasse junto ao meu corpo. Não me lembro das vezes em que me deixei que me pegassem assim, mesmo quando já tinha uns anos largos fora do corpo quente da minha mãe. Não sei se te vou ver crescer de perto.
Mas sei que te vais fazer grande e o Mundo parecerá muitas vezes pequeno para ti.
Também sei que não sou nenhuma fada na berma do berço, mas se tivesse um condão, não era apenas saúde que te desejava. Pedia que mantivesses a consciência de que somos sempre pequenos perante a imensidão do mundo, grandes perante os desafios da vida e capaz de nos entregarmos aos outros, assim como aquele colo despudorado que me permitiste quando te segurei dos braços da tua mãe.

Que a vida te dê sempre o melhor dos colos na proporção da melhor das entregas,
Desta tua amiga,

Isabel Saldanha”

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Família ADAMS

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Sou uma mãe porreira. Disso, tenho a certeza.
Levo ao expoente máximo a arte de ser criança. Em minha casa permite-se o eco agudo das expressões mais dramáticas.
Com a minha mãe não era assim, cinco filhos em casa, individualidades homogeneizadas e pais tranquilos.
Arrebiques de carácter e nuances de extroversão eram passados a ferro de educação. Havia fases para todos mas o colectivo não podia ser ameaçado com o despontar de uma rebeldia singular.
Quis contrariar o modelo e não faço ideia do ónus do resultado. Se querem maquilhar-se partilho as minhas tintas, se querem desfilar, empresto as minhas roupas, se pedem para cozinhar, vamos para a cozinha. Da sala faz se palco de teatro, do corredor passadeira, da cama trampolim. A verdade é que ser mãe assim me dá uma sensação apaziguadora de vingança tardia sobre o reinado dos meus pais. E também é assim que me via a ser mãe.
Preservo o meu espaço mental quando o sono lhes dá carinho, mas até lá é tudo nosso, quando elas estão, para usufruto colectivo.
Aqui há dois anos a Caetana decidiu que queria ser gótica, tinha apenas 8 anos e a única peça do armário preta era o maillot de ballet. Condescendi, lembrada que o acto de contrariedade degenera normalmente numa obsessão pelo tema. Tive sorte, o maillot não dá jeito para ir à casa de banho e em duas semanas cansou-se do exotismo. Agora tem 10 e decidiu que queria ser gótica novamente. Já tem umas quantas peças negras no armário e sabe que o meu está cheio delas.
Adoptei a mesma estratégia…mas ao gosto pela vestimenta preta, soma-se agora uma paixão por literatura das trevas e uma obsessão por temas como o holocausto e os terramotos. Não sei se não preferia quando tinha que levar com a histeria da Violeta em todas as interfaces de som. Confesso que acho mais assustador vê-la a googlar (vigiada) o retrato do Hitler e o museu da Anne Frank. Até na mochila da escola encontrei um livro de poemas do Edgar Alan Poe em inglês resgatado à minha estante.
A Camila que atesta a sua individualidade permanentemente, já começou a ter sonhos com refugiados e hoje pediu-me para ir de cinza escuro para a escola (pantone a pantone vai ficando gótica).
…e quando até a poesia assusta, fico na dúvida, se a contrariedade não devia ter tido lugar ou se também me vista de preto:)*

P.S.: *Também tive a minha fase gótica. E permaneceu a poesia

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UM DESAFIO | UM RÓTULO

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Tenho uma série de garrafas de vinho na minha mesa do escritório. Umas vazias e outras fechadas, mas tudo isto tem um propósito: O vinho #filhasdamãe.
E as loirinhas estão comigo desde o dia em que decidimos avançar com o Projecto, a criação de um vinho nosso, em parceria com o enólogo Paulo Laureano.
Gostamos de nos envolver a fundo no que fazemos. Não queremos dar nome, queremos dar forma e alma. E por isso, fomos vindima-lo, fomos pisa-lo, fomos prova-lo e estamos naquela fase deliciosa do namoro do rótulo.
A Caetana diz. – É mesmo cool mãe! Vamos ter um vinho.
E a Camila diz que preferia que fizéssemos barras de chocolate. Mas pega na garrafa vazia, logo de seguida, e pergunta se pode levar para a escola para mostrar à professora.
O vinho tem álcool, é verdade. Mas não é o álcool que define o vinho. O vinho é um equilíbrio de propriedades, um blend da terra, com as uvas, as pessoas, as mãos e os sentidos que o sacodem e saboreiam. Pusemo-nos as três a falar alegremente sobre o rótulo, e embora, elas não percebam nada sobre o paladar do vinho, pude explicar-lhes a importância do terreno(terroir), falei-lhes da uva, a primeira “filha da mãe” terra, falei-lhes da celebração, das diferentes castas, do processo de vindima e dos segredos guardados em pipas enormes de madeira. Igualzinha aquelas em que deixamos mensagens no alto mar.
Tenho a certeza, que mesmo ainda antes de sentirem o sabor, já lhes vislumbraram a essência. E com uma “pinga” bem aplicada de orgulho, terei semeado nelas, o mesmo gosto que hoje tenho por esse paladar engarrafado:)
Perguntei-lhes que rótulo gostavam de ver num vinho que também é delas. Sugeriram-me imagens, desenhos e palavras, e foi dessa conversa entornada, sem rolhas à imaginação que começamos a desenhar o rótulo do nosso vinho. Ainda não está concluído e a rolha ainda não está selada. A Caetana sugeriu e bem, que vos perguntasse o que esperavam ver no rótulo.
“Pode ser que eles tenham mais imaginação que nós e que gostem tanto de vinho como a mãe”.
Por isso aqui vai o nosso pedido:
Mandem as rolhas cá para fora e respondam às “filhas desta mãe” sff:)
Obrigado!!

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