cenas do coração

O poder de uma bolacha

Gosto que seja a espontaneidade a marcar compasso numa sessão fotográfica. Gosto de conversar e disparar ao mesmo tempo, como se a máquina fotográfica fosse um café que vou levando à boca e o cliente, um amigo de longa data com quem combinei estar. De vez em quando peço que posem por que também quero que tenham uma recordação mais tradicional do dia. Mas o que procuro é que a Inês seja ela mesma, esta deliciosa miúda de bochechas redondas que dá tudo para comer uma bolacha. E o que quero captar é este amor ternurento dos pais que reconhecem na filha uma extensão deliciosa da sua combinação de ADN. É assim que fotografo, focando mais na personalidade que na pessoa. Quero que o que seja nítido e visível tenha mais a ver com a alma capturada do que a nobre feição congelada. E assim, sem grandes truques, se faz acontecer. Respeitando tudo o que já lá está.

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Duas folhas soltas

Óbvio que não é estranho que as fotografias corram bem entre nós. Não apenas porque sou fotografa e porque a Marta também o é. E porque somos amigas, grandes amigas. E porque somos praticantes activas da Metáfora. E porque adoramos livros e gomas. São quase 20 anos que nos separam e parece que somos gémeas, embora eu às vezes sinta por ti, aquela ternura de mãe que acolhe e o olhar protector da mana mais velha. Não é a idade que nos separa, nem aqueles centímetros que tens a mais que eu. Aliás, quase tudo nos impele uma para a outra. Como se o destino fosse uma gigante força centrífuga e nós fossemos duas folhas soltas da mesmo árvore mãe. Quando dizem que estávamos destinadas, rio-me. Gosto de me sentir em controle do destino. Mas a verdade intrínseca da vida é que controlamos muito pouco. E se tu és parte desse descontrole…então um grande bem haja a essa parte descontrolada da vida, que nos eleva a maré alta dos sonhos e nos faz acreditar, num mundo cheio de barreiras, que nada é verdadeiramente impossível. Não desconfiem nunca do amor. Do amor não. Nem das folhas soltas, nem da força centrifuga que faz com que duas folhas rodopiem, como se fossem fruto de uma mesma mãe.

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( mais, pelas) AMIGAS

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Sempre adorei estas sessões de amigas. Lembram-me das coisas que ainda quero fazer com as minhas.
Lembram-me da urgência do tempo. Dos milhares de fins de semana combinados em noites de conversa boa. Lembro-me inevitavelmente das histórias que ficaram por acabar.
Da forma como crescemos rápido. A Maioria emparelhadas e já com filhos. E como agora tentamos encaixá-los nos nossos serões.
Devíamos dar sempre tempo a este tempo nosso. Porque a gargalhada da amizade enrijece-nos, torna-nos mais imunes, mais capazes.
Porque o tempo passará sempre. E será sempre melhor neste passar acompanhado.

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Só nosso. Só vosso.

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Tenho andado de namoro com a vida. Sem tempo para partilhar convosco as sessões que vou fazendo, as pessoas que também vou conhecendo.
É engraçado que há medida que vou entrando com força no que faço, percebo cada vez mais o sentido de tudo isto. É um privilégio poder registrar estes momentos, estes que darão suporte a tantos outros momentos. A memória às vezes foge-nos, prega-nos partidas. Mas aqui neste momento fica eternizado a plenitude de uma sensação. E há em todos estes cliques uma verdade tão grande, que se não fosse isto que faço, era isto que quereria fazer. Parabéns Vanessa e Daniel a vossa história é uma história cheia. A vossa vida enriquece a cada segundo e foi um prazer enorme estar presente nesse pequeno registo de eternidade.

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GANGA NISSO

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Sabia nesse preciso momento em que estávamos a fotografar, o “buzz” que seria, o apontamento de lingerie e um pedaço de corpo descoberto.
Sobretudo o teu:)
Não sou tua advogada, sou tua amiga, mas hoje, nem como amiga falo, escrevo apenas como mulher. Porque assisto a isto, vezes sem conta, de forma tão subliminar e tão escancarada.
O pudor é da contabilidade de cada um, tal como a propriedade do corpo. Faço milhares de sessões por ano, muitas delas “boudoir” (sessões de lingerie em estúdio) que não divulgo aqui, porque não é aqui a esfera onde vivem, é na recordação de auto estima que algumas clientes minhas, resolvem oferecer a elas mesmas, às vezes fruto de paixão a outro, outros fruto de um gigante amor próprio. Gosto desses momentos, quando nos vejo a vencer o medo, quando o “que se lixe” fala mais alto “do que é que os outros vão pensar de mim”.
Não há rebeldia nenhuma no exercício do amor próprio, há uma imensa serenidade que nos pacifica com a mente, com o corpo e com o momento.
E fico feliz à séria, quando é através da minha lente que deixo registado esse encontro, tão livre de espartilhos, que vai ganhando cada vez mais terreno no coração das mulheres.

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“Não papo grupos”

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É hora de matar as saudades das minhas loiras.
Foram três semanas a fazer e a desfazer malas. Isto, quando ainda mal assentei arraiais em nova morada e mal me apaziguei de todo o “agito” que se vive dentro deste coração. Dizem acertadamente que o Segredo para enfrentar a Saudade não está em fugir, mas ajuda muitíssimo não parar de viver.
E se é para falar de Saudades, que fale então da falta que me vai fazer o Grupo que embarcou na viagem comigo a São Tomé. E não pense, quem não foi, que era um bando de fãs acérrimas dispostas a elevar-me o ego pelo preço avultado de uma viagem, nada disso. Era gente do melhor que há. Pessoas que convidaria para beber uma boa reserva comigo, sem as reservas das conversas mais formais. Sei que todos vocês estavam com medo do grupo, era um gigante “blind date”. A única viajante conhecida era eu, e mesmo assim, havia sempre a probabilidade da filha da mãe não corresponder à mãe das filhas. Embarquei sem medos, como se embarca numa viagem de amigos, aquelas raras que a malta lamenta sempre não ter feito mais. Vivemos tudo, acima das possibilidades, criamos oportunidades, atalhos e caminhos. Brindámos, rimos, dançamos como se não houvesse amanhã, partilhamos histórias, fotografias e vivências. Os dias eram tão cheios que todos partilhávamos da opinião, que no Equador, um dia ultrapassa as 24 horas. Fiquei com um carinho especial por cada um de vocês, eram os meus “meninos” dizia eu, como se de repente fosse a mãe pata de uma ninhada sem fim:)) E eu tenho tão pouco samba para isso.
Cada um de vocês, à vossa maneira, há de ser personagem num livro meu. No meu Instagram foi colocando as fotos possíveis dos sítios por onde passávamos, mas a verdadeira história da viagem não tem legenda, nem fotografia. São aqueles episódios que se inscrevem na memória fina dos dias e que ditam os cliques futuros de tudo o que ainda está para vir. Claro que vamos estar juntos num futuro próximo, claro que vamos querer recalcar as memórias e as histórias regadas a mojitos e caipirinhas. E é claro que ficámos amigos porque África, e talvez São Tomé em particular, tem esta qualidade boa, de fazer suar tudo o que é tóxico no corpo e deixá-lo permeável às melhores experiências. Obrigada grupeta boa. Foi tão bom, como se fosse tudo uma primeira vez. Venha daí uma segunda!

*Obrigada à toda a equipa do Omali e da HBD pela estadia, recepção, profissionalismo e simpatia. Com um carinho muito especial pelo chefe Tiago Velez @mariachicook, que tratou do nosso palato como ninguém, chegámos a Portugal com as curvas perfeitas!

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O pavio dos sonhos

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Sei que o mundo é enorme e que há um milhão de lugares por descobrir. Também sei que a vida é curta para todas as milhas que pomos nos sonhos. Também sei que sempre que a vida me dá uma oportunidade de me pôr a milhas, vou. Mas sei que não vou poder ir a todos os lugares onde já sonhei ir. Já houve uma altura na vida, em que este pensamento repetido era todo angústia. Hoje em dia já saboreio cada lugar sem a sombra do próximo destino, da mesma forma que aprendi a entregar-me às pessoas que gosto, sem ambicionar outros colos. Ainda sei pouco, mas já aprendi que o pavio da vida tem comprimento que chegue para soprar muitas velas. E que repetir um destino é como beijar uma segunda vez um primeiro amor. Por isso, repito, releio, relanço e rebolo no destino repetido, como se ele fosse um sonho embrulhado de novo, que a vida me deu para rasgar outra vez.

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Regressar vezes sem conta…

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Há uma semana atrás estava em Espanha a celebrar os meus anos, hoje estou em São Tomé com um grupo fabuloso a desbravar uma ilha onde me sinto em casa. Não conheço todos os cantos à casa, mas de alguma forma sinto que a casa me conhece. Regresso aos lugares que conheci, desbravo outros que ainda não conhecia, respiro esta doce humidade, junto com a largura incomensurável destes sorrisos. Tive tanta sorte com o grupo, como tenho com quase toda a gente que me calha, esperando que sintam o mesmo comigo. Somos oito, conjugamos as nossas diferenças como se fossemos partes dissonantes, que se equilibram de forma perfeita no mesmo conjunto. Dá me um gozo redobrado, conduzir sem guiar, levar sem carregar. Também eu, me sinto a ser transportado por esse entusiasmo virgem de quem olha para tudo com o encanto da primeira vez. Estou a adorar e sempre soube, que regressaria vezes sem conta…com o encanto da primeira vez. Obrigada Marta, Mónica B, Mónica M, Joana, Sofia, Renato e Duarte.

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BILBAO em casco lento

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O destino final não era Bilbao, mas era um destino por cumprir. Quando era pequenina fui com os meus Pais até San Sebastian, na altura Bilbao era um cidade com uma conotação muito industrial e não me recordo de ter parado lá. Anos mais tarde Bilbao, que é uma cidade riquíssima em património, foi rejuvenescida no mapa e daí ao Guggenheim de Bilbao foi um pulo para que se tornasse paragem obrigatória. De Lisboa a Bilbao ainda passei por Zamora e comi num sítio fabuloso: O restaurante Serafin que tenho que partilhar convosco. Sei que há muito mais referências gastronómicas e que Zamora vale um descritivo rico, como quase todos os “pueblos” e “pueblitos” de Espanha. De uma riqueza patrimonial, arquitectural e gastronómica. Há 6 anos que passo o meu aniversário fora. Nem sempre dá para apanhar aviões e rumar às aguas “calientes” de um Pacífico qualquer, mas dá para carimbar o passaporte do estômago e deixá-lo conduzir-me até a um destino onde sou sempre feliz. Espanha tem o melhor jamon ibérico do mundo, o único mesmo. Só durante esta viagem, devo ter adicionado ao meu perfil de Instagram, umas 25 contas relacionadas com Presunto. Cada um tem as suas taras, o Presunto é uma das minhas. Mas regressando ao que interessa. Bilbao encantou-me, passei aqui uma noite, num hotel anódino mas muito central. O ideal quando se tem pouco tempo para conhecer um destino e se gosta de andar a pé. Não sou fã de corridas mas sou uma “forrest Gump” no campeonato do passo acelerado e adoro tudo o que não nos escapa quando viajamos de rabinho tremido a olhar pela janela. Como tinha que seriar os pontos de interesse comecei pelo Museu Guggenheim, com direito a visita (é insulto só ver algumas coisas por fora) e depois segui para o Casco Viejo, que é o bairro histórico de Bilbao. Espanha é um “bocadinho” maior que Portugal, pelo que a dimensão de um bairro histórico não está reduzida a uma praça central, três ruas paralelas e uma perpendicular comprida. Vale a pena perder umas horas a consumir as ruas, ao passo de um casco velho, sem pressa, com tempo para beber um copo de vinho e atacar uma tapas encostada a um barril qualquer. E foi isso que fiz, com a consciência que fica sempre alguma coisa por ver, algum tinto por beber e um presuntinho por comer:) Próxima paragem Saint Sebástian.

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Assuntos de família

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Já vamos na terceira sessão com esta família. Todos os anos repetimos. Todos os anos os vejo crescer. As crianças, o projecto, a família. Quando os encontro, passam-me a tranquilidade, de que há coisas boas que permanecem boas. No meu entretanto de espaço, já houve tanto tumulto que quando me perguntam: – Então Isabel, e tu? Novidades? Por momentos até sinto uma certa inibição de contar. A verdade é que nos “entretantos” de toda as famílias há momentos, bons e maus, angustias e alegrias. Não há imunidade, basta estar vivo. E deve ser tão grande o motivo de orgulho em saber permanecer, quanto o de mudar, quando não estamos felizes. E estas sessões acontecem neste momentos. Em que assumimos a felicidade plena das nossas escolhas.
Obrigada Adela, Bernardo, Luis, Carlota e Duarte.

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