Assuntos do coração

desgosto

Quando a Caetana disse que o namorado tinha acabado com ela, e que queria que a fosse buscar para almoçar à Escola, fui logo!.
Fomos às docas comer qualquer coisa, mãe e filha, na partilha do primeiro desgosto de amor.
Pedimos dois batidos de morango, com aquelas palhinhas compridas que dão imenso jeito para sorver nos momentos de silêncio e de mútua compreensão:)
Não se pode minorar os assuntos do coração, mesmo quando ele só bate há 8 anos e nós já tivemos uns que ainda batem há 10. Depois de termos assegurado a suculência dos hambúrgueres, havia que morder o tema.
Perguntei-lhe, sempre de forma natural e despretensiosa:
– Então Caetana? O Pedro acabou tudo?
– Acabou mãe. Disse ela, com uma tranquilidade assustadora, com restos de pão nos cantos da boca.
– E como é que isso foi? (não devemos arriscar perguntas demasiado sentidas, nem olhares demasiado curiosos, o tema é frágil há que não assustar)
– Ele pediu a um colega da carteira do lado para dizer que queria acabar tudo.
(ups…pensei)
– E a Caetana como é que reagiu?
– Disse que sim.
– E não lhe perguntou directamente? Não sabe porque é que ele quis terminar tudo? (Nesta fase, a minha curiosidade bombardeira de mãe perante a cria ferida, disparou)
– Acho que acabou, porque eu era gótica. Acho que ele não gostava assim tanto de preto. Mas agora, eu já sou surfista.
Puxa, pensei, isto é muito material para uma conversa.
Não querendo desviar dos assuntos do coração, achei que era importante dizer:
– Não me importo nada que a Caetana seja gótica e que logo a seguir descubra, que afinal o que quer é usar sweat-shirts de capucho e andar de pão de forma, mas quando mudar, mude porque acredita. Não mude por ninguém. Quem gosta de nós verdadeiramente, gosta de nós como somos, em todas as nossas alturas, mudanças e looks.
Amor à séria não depende de styling.
Ela olhou para mim e sorriu. Acho que o fez, como quem diz, percebo parte do que dizes, a outra parte, vou armazenar com jeitinho e mais à frente dou te feedback.
Voltei ao tema central do almoço.
– E a Caetana ficou muito triste?
– Fiquei. Mas depois, sentei-me num banco e passou.
Tenho um certo orgulho nesta falta de propensão para a tristeza, misturado com o medo ligeiro das emoções superficiais.
O importante, agora que lhe passou, é descobrir onde fica esse banco de recreio, que tem o condão milagroso de aliviar as dores de um coração partido.
Prometo partihar localização:))♥

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